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domingo, 23 de agosto de 2009

Zeus - O Protetor dos Deveres da Hospitalidade




Zeus foi o rei dos deuses, o deus do céu e da tempestade, do destino dos homens e nações, da lei, da justiça e da conduta moral. Ele foi largamente cultuado na Grécia Antiga com numerosos templos e santuários. Muitos desses foram localizados no topo de colinas ou picos de montanhas, encontrou-se lugares onde oferendas eram tradicionalmente feitas para o deus que traz a chuva. Ele foi também cultuado particularmente pelas famílias em pequenos templos domésticos. - Retirado do site Theoi


“Xenios (Hospitaleiro): aquele que guarda a hospitalidade. Zeus também é chamado de protetor dos deveres de hospitalidade (Xenios)”. – Retirado do site Theoi

Por algum motivo hoje eu decidi falar um pouco sobre Zeus, deus ao qual eu sei muito pouco, embora estivesse sempre presente em minha vida de uma maneira ou de outra. Acho que como as outras pessoas eu gostava de pensar mais a respeito de um Zeus guerreiro, portador da égide, soberano, rei, senhor de tamanha nobreza ao qual muitas vezes eu não julgava estar sequer aos pés.
Admito ter ficado espantada quando li há algum tempo que Zeus era protetor dos casamentos (Gamelios), protetor das provisões (Ktesios), mas o que mais me chamou a atenção e pelo o que eu realmente quero falar neste ensaio é sobre Zeus Xênios, aquele que guarda a hospitalidade, o protetor dos deveres de hospitalidade. Na Antiga Grécia, era obrigação receber bem todo e qualquer estrangeiro, de prestar cuidados, auxílio e hospitalidade, isso era um código inviolável de paz.
Nos dias em que vivemos é muito difícil honrar esse código de conduta, nem sempre nós podemos abrir as portas de nossas casas para receber um estranho porque não sabemos na verdade o que nos pode acontecer. Vivemos temerosos e inseguros diante da brutal violência a qual temos de lidar em nosso cotidiano, além de vivermos numa sociedade que carece sem sombra de dúvida de valores. Porém, não por isso devemos deixar de exercer esse código.
Quando recebemos um amigo ou um amigo de um amigo em nossa casa, nós devemos dar-lhe o que há de melhor lá. Não precisa seguir um manual para saber como tratar alguém como que se estivesse recebendo um rei em sua casa, todos nós sabemos como agir, como agradar, como cuidar, como acolher alguém. É dessa forma que devemos ver as pessoas, como nobres que atravessam o nosso caminho, sejam essas pessoas o que forem. Damos o que há de melhor para elas, não para mostrar o que temos, mas sim para nos enobrecer com tal gesto, como faziam os antigos. Cultuar Zeus implica também em seguir seus códigos, fazer aquilo que a energia do Deus nos impele a fazer.
Quando recebemos as pessoas em nossas vidas, seja da forma como for, temos de dar a elas a nossa hospitalidade, o auxilio que elas precisam, cuidar das coisas que elas necessitam e quando partirem sabermos que fomos nobres em nossos gestos e que se algum dia precisarmos estar numa terra estrangeira, talvez tenhamos amigos lá também para nos acolher. Falo também de forma figurada. Muitas vezes pessoas entram em nossa vida num momento em que precisam de nós, podemos dar as costas e fingir que não ouviu as batidas em nossa porta, como podemos abrir a porta e acolhê-las e cuidar delas no tempo em que estiverem em nossas vidas.
Nós pensamos muitas vezes que nem sempre a pessoa agirá com reciprocidade e talvez quando precisarmos dela, ela não nos ajude. Pensamos também que ela pode violar o nosso lugar sagrado, bagunçar com a nossa vida, trair nossa boa índole e se isso acontecer, ela estará violando um acordo sagrado e nós temos todo o direito de declarar “guerra” a essa pessoa, pedir por justiça, buscar pela justiça. Esse caso é muito bem exposto na Ilíada quando Páris abusou da boa acolhida do rei Menelau de Esparta e levou Helena consigo para Tróia. Não somente pelo adultério e desonra do rei Menelau, porém ser acolhido, bem recebido e retribuir todo o apreço do anfitrião com uma traição humilhante era inadmissível. Violar uma regra sagrada era incitar a guerra.
As Máximas Délficas que nos lembra sempre disso são as quatro listadas abaixo, segundo a minha percepção:


55. Dê de volta o que recebeu (Λαβων αποδος) .
93. Lide gentilmente com todos (Φιλοφρονει πασιν)
97. Seja cortês (Ευπροσηγορος γινου)
106. Seja grato (Ευγνωμων γινου)

Da mesma forma nós devemos lidar com os deuses, como muito bem explicado num artigo de Carolyn Hanson, traduzido para o português por Alexandra Nikasios:

Xenia - Amizade convidativa, hospitalidade. O anfitrião e o hóspede/convidado são unidos por concordâncias especiais de amizade, proteção e reciprocidade. Tal relacionamento não é muito diferente do relacionamento entre um cultuador e um Deus. - Conceitos Importantes na Religião Helênica

Como reconstrucionistas helênicos é um dever exercer a hospitalidade como uma forma de honrar e alegrar Zeus, carentes de valores como estamos, devemos buscar agir em nossas vidas adotando códigos de condutas que condizem com a nossa fé e assim ter também um bom relacionamento com nossos deuses e nossos antepassados que nos legaram essa religiosidade que buscamos exercer hoje. Fazer rituais é importante, mas não é somente isso que precisamos para exercer nossa espiritualidade.

Que Zeus e Apolo nos abençoem nessa obra.
Ésto.

sábado, 4 de julho de 2009

Grupo, group, Kindred, Folk, Thiases ...

Muita coisa triste acontecendo em pouco tempo, isso sempre me faz pensar em meus deuses e nos aprendizados que tiramos dessas situações. Muitos pensam que cultuar os deuses na verdade pára exatamente nesse ato, não sei exatamente que vantagem Maria leva nisso, no final das contas, porque eu vejo os deuses como algo palpável e diário, eu vejo os deuses e suas ações em mim e nas minhas ações, nos meus amigos e parentes e nas ações deles.
Nos últimos meses eu me peguei compreendendo o quanto eu mesma estava desprovida de valores, no quanto eu mesma estava perdida por conta disso. Também por muito tempo em meu caminho espiritual eu quis caminhar sozinha e nunca havia me dado conta do quanto nós crescemos como seres quando temos a dádiva de podermos caminharmos em grupo, o contato, o carinho e mesmo as brigas nos elevam de uma forma grandiosa, de modo a fazer-nos pensarmos mais e mais no que devemos e podemos melhorar.
Como devota de Apolo, o desejo de ser melhor a cada dia é grande em meu coração, é um desafio afinal, ter de tomar uma nova postura diante da vida e das coisas, dos amigos e das paixões, da família e de si mesmo. Em minha concepção minha espiritualidade deve estar encerrada exatamente aqui, onde eu vivo, onde eu me encontro, onde eu sinto e penso, onde eu estou. Não sinto que meus deuses são apartados de mim, mas estão comigo em cada ação, no meu dia-a-dia, em meu desejo de me tornar uma pessoa melhor, em meu desejo de me vencer como meu pior inimigo (que sou).
Esse contato em grupo tem me elevado de um modo impressionante, tenho visto qualidades minhas que jamais havia visto antes, medos que jamais tive antes, estou tomando posturas e ações que eu também jamais havia tido antes. Entreguei fragilidades minhas, tais como medos, controles, dependências a Zeus e tenho tentado agir de acordo com isso, tenho tentado impor um novo comportamento a mim e entregando esse sacrifício a Zeus. Tenho pensado em milhares de coisas as quais eu desejo mudar, em milhares de coisas que me tornariam melhor tanto para mim, quanto para o mundo, sei que eu tenho que ir com calma, sempre um passo de cada vez, mas a cada dia que eu venço, que eu deito em minha cama e vejo que agi como deveria, sendo verdadeira comigo e com os outros, eu sinto que estou vencendo e me tornando cada vez mais pagã.
Como conversava esses dias no telefone com o meu irmão (de espiritualidade) preferido e que chegamos a um consenso onde sabemos que nos dias de hoje todos os conceitos cristãos que nos fizeram engolir goela abaixo durante toda uma vida, estão alguns tão arraigados que se tornar realmente um pagão se torna uma missão impossível (embora sabemos que isso é bem possível se realmente desejarmos isso) e isso instigou em mim, e acho que também nele, essa vontade de fazer melhor, de ser melhor, de abrir nossos pontos de vistas e de mudar nossas crenças e conceitos.
São nessas fases mais difíceis que encontramos uma luz, uma força que nos impele ir em frente, que nos faz desejar mudar tudo o que parece estar nos deixando estagnados. Quando pude ouvir minha amiga dizendo sobre suas dificuldades, eu vi o quanto foi importante todo este caminho, toda a lapidação que tenho recebido dos deuses, foi como que se eu tivesse visto que realmente eu subi um degrau. Hoje conversando com a Sis, notei que não vale a pena não sermos verdadeiros ou tentarmos passar uma imagem de “semi-deuses”, porque somos mortais e devemos pensar como mortais e viver como mortais, mascaras servem somente para nos prender, para estagnar nosso crescimento. E não creio que exista crescimento sem amor, nem amor sem coragem e nem coragem sem deuses e nem isso seria possível se eu não pudesse observar meu caminho com minha mente e pensamento e tampouco que eu pudesse observar tudo isso sem os olhos daqueles que verdadeiramente me amam e me apóiam nesse caminho.
Acho que acabei por fazer esse post se tornar exatamente um tipo de elogio e de passar a imagem do quanto estou feliz e do quanto sinto que estou crescendo, quando sei que posso compartilhar minha vida e espiritualidade com pessoas que realmente estão aqui comigo e eu espero de coração que eu esteja também fazendo a minha parte no caminho deles!

quarta-feira, 18 de março de 2009

Cante pelos bosques!

Dionísio, deus do êxtase e do
entusiasmo, levava com seu cortejo alegria e felicidade por toda a Grécia onde
também era considerado protetor das belas artes.

“Ele ouve e considera tudo; nem sequer um discurso,
nenhum choro, nem barulho, nem voz nefasta escapa do ouvido de Zeus” – Hino
Órfico

O único meio de comunicação que eu tenho com os deuses, exceto em casos raros que os escuto quando estou desperta, é através de sonhos. De todo modo hoje foi um daqueles dias difíceis. Como algumas pessoas sabem, não estou em um dos meus melhores momentos, estou atravessando aquela fase insegura da mudança, como alguém que entra em seu barquinho e tenta atravessar o rio de uma margem a outra. Só que há dias sinto que eu estou parada no meio do rio e isso me deixa muito triste, não somente com a situação, mas em especial comigo mesma.
Vivendo ao longo desses anos, eu descobri que sempre há aquele momento em que perdemos nossas forças, em que estamos tão confusos ou tão inseridos dentro de nossos dramas emocionais ou simplesmente mentais, que não conseguimos nos reconhecer, que perdemos total e completa noção de quem nós somos. Os momentos de intensa dor ou de desespero são comuns a todos nós que caminhamos sob o sol, ninguém está livre disso. Não importa o que faça você perder o sono ou dormir demais (fuga), importa que sempre haverá momentos em que somos abatidos pela tristeza e a duvida e vejo que são nesses momentos que os deuses fazem o trabalho deles.
Enquanto temos forças para seguir e reagir, os deuses vão nos guiando e aconselhando pacientemente, mas naquele momento em que nos encontramos despedaçados, em que não vemos uma saída, em que não conseguimos seguir por mais que q1ueremos, ou que caímos sobre nossos joelhos de pura exaustão, então os deuses vêm para nos levantar pelas mãos e nos mostrar que não estamos sozinhos e que tampouco fomos por eles abandonados e nos mostram que em nenhum momento em nosso caminho, por mais difícil que esse pareça, eles nos deixaram sozinhos sequer por um segundo. Mesmo aquela prece que proferimos e que nem sentimos nada demais escapou dos ouvidos dos deuses.
Foi uma dessas preces dolorosas e sinceras que eu fiz durante a manhã, aquela em que descarregamos toda a nossa carga emocional, em que proferimos sinceramente que se estamos pedindo por ajuda é porque não sabemos mais o que fazer, ou como fazer ou estamos tão cansados que mesmo sabendo o que fazer não conseguimos nos mover. Eu estou nesse momento em que não posso ficar, mas também eu não consigo seguir. Mais nenhum humano no mundo poderia fazer isso por mim e foi com um sincero apelo que eu disse: “Os Deuses têm me ajudado em tudo o que tenho pedido. Por que não me ajudam nesse quesito? Por que não fazem por mim o que mais ninguém nesse mundo e tampouco eu estou conseguindo fazer? Não importa o que façam, eu só quero me ver livre desse sofrimento!”.
Eu acordei com uma forte tempestade caindo, os trovões eram tão altos que tremiam as paredes de casa, São Paulo inteira já estava debaixo d’água e a lembrança de meu sonho, onde após uma lição sobre aprender a guerrear no inverno, eu entrava em casa cantando para Zeus e Dionisio. Uma experiência mística, que me trouxe certezas e não fé, porque eu particularmente não gosto da palavra fé, fé me parece sugerir que acreditamos em algo que está distante. A minha experiência hoje vai além disso, eu tenho certeza, tenho confiança em meus deuses, não como algo distante, mas como Pai e Irmão que estiveram comigo me ouvindo naquele momento em que eu mais precisava ser ouvida e a confiança de sustenção como que se o próprio Zeus tivesse sussurrado em meu ouvido num abraço: “Fique tranquila, nós daremos um jeito nisso”. Como minha amiga helenica me disse sabiamente, enquanto estamos aqui insanamente sofrendo, Zeus está lá em cima já sabendo de tudo o que nos aconteceu e o que nos acontecerá.
Foi exatamente essa certeza que me inspirou escrever um post onde eu me coloco de maneira vulnerável e fragilizada, mas perfeitamente humana. Essa é uma forma de agradecimento, de dizer para os outros sinceramente que não importa os momentos pelos quais passamos, nossa capacidade ou a falta dela, nossos desejos ou tentações (tentação no sentido de desejar algo para se livrar do sofrimento e conseqüente crescimento que esse nos traz, porque é muito fácil desejar não sofrer e viver num ilusório mar de rosas, mas sofrer [não como um modo de purificação] nos impulsiona a mudar e nos transformar) que nós podemos contar com um poder superior que nos traz força para continuar e prosseguir em nosso caminho. Entenda, não posso acreditar em deuses que não riem e que não dançam, como também não posso acreditar em deuses que repudiam nossa humanidade.
Tenho plena confiança que em breve estarei escrevendo mensagens mais animadas e alegres, porque logo estarei dançando pelos bosques com Dionisio e espalhando por aí toda alegria e embriagues divina. E orgulhosa de saber que eu irei realmente fazer jus as palavras que eu escrevo, como profetisa que sou [Xaire, Apolo! Teu dom, tua dádiva!]. E assim provaremos eu e minha amiga helenica (e quem mais os deuses quiserem), como nossas cadelas negras anunciaram, a nossa primavera. Então, que venha!